IERONIMUS
1 hora 30 minutosEm 2002, por motivo da Capital Europeia da Cultura, as torres da Catedral de Salamanca abriram as suas portas ao público com a exposição Ieronimus. O percurso toma o seu nome de Jerónimo de Perigueux (c. 1060‑1120), clérigo francês e capelão do Cid Campeador, que foi nomeado bispo de Salamanca em 1102, em plena repovoação cristã promovida pelo rei Afonso VI.
A visita permite adentrar-se nas torres medievais e percorrer terraços, plataformas e aposentos de ambas as catedrais, oferecendo uma perspetiva única do conjunto catedralício. Destes espaços elevados desfrutam-se vistas espetaculares da cidade e acede-se a recantos que habitualmente permanecem ocultos. O itinerário permite contemplar de perto a emblemática Torre do Galo, subir à Torre Campanário ou espreitar o interior da Catedral Nova de uma varanda privilegiada.
Hojete, Ierónimus consolidou-se como um dos espaços mais visitados de Salamanca e uma das suas propostas culturais mais emblemáticas, combinando história, arquitetura e uma experiência visual incomparável. Ao finalizar a visita, compreende-se que não se percorreu apenas um monumento: atravessaram-se seiscentos anos de história e arte condensados nas Catedrais de Salamanca.
Preço visita livre
- Individual - 4.00 €
- Grupos (Número mínimo: 20) - 3.50 €
- Niños (Edad máxima: 10) - 0.00 €
Após a reconquista de Toledo, o rei Afonso VI de Leão ordenou o repovoamento de diversos núcleos situados a sul do Douro, entre eles Salamanca. A missão foi confiada ao seu genro, o conde francês Raimundo de Borgonha, esposo de Dona Urraca —futura rainha do Reino de Leão—, que culminaram o repovoamento da cidade no ano de 1102. Os condes nomearam bispo a Jerónimo de Perigord, um clérigo francês que havia sido capelão do Cid e bispo de Valência.
O aspeto exterior da Catedral Velha durante a Idade Média, rodeada de ameias, valeu-lhe o cognome de fortis salmanticensis, em alusão à sua aparência de fortaleza. O traçado de Santa María de la Sede incluía duas torres aos pés do templo: a mais alta destinada a campanário, e a mais baixa, a Torre Mocha, concebida para a defesa do recinto. Até 1614, o compartimento inferior desta última funcionou como masmorra da catedral e só era acessível a partir do interior do templo. A porta atual abriu-se nesse mesmo ano, quando o espaço deixou de ser utilizado como prisão e passou a servir de acesso para o pessoal da Catedral, que durante séculos ocupou parte das torres como habitações. Ali residiram os sineiros e as suas famílias até à década de 1960.
Desde o início do século XVIII, a Torre dos Sinos foi objeto de sucessivas reformas. Após o incêndio provocado em 1705 pela queda de um raio na Torre dos Sinos, o mestre Pantaleón Pontón Setién acrescentou o remate barroco que hoje constitui o corpo superior da torre. O excesso de peso desta estrutura, que duplica a altura original da torre, provocou o aparecimento de grandes fissuras. O terramoto de Lisboa de 1755 agravou ainda mais o seu estado, ao ponto de ameaçar ruína. As reparações posteriores incluíram a colocação de cintas de ferro no perímetro exterior do fuste românico, tirantes de madeira nos compartimentos interiores —aproveitando os vãos de janelas que foram cegados— e um reforço exterior do fuste da torre através de um revestimento de silharia com perfil em talude.
A origem do atual percurso pelas torres deve situar-se entre 1998 e 2001, quando foram realizados os trabalhos de restauração da Torre Mocha e da Torre dos Sinos dentro do Plano Diretor de Restauração da Catedral de Salamanca. Pouco depois, graças a um acordo entre o Cabido Catedralício e a Câmara Municipal de Salamanca, os recintos interiores das torres foram abertos ao público.
A sua abertura ao turismo no ano de 2002 coincidiu com o 900º aniversário do repovoamento da cidade. Desde então, Ieronimus consolidou-se como um espaço singular e surpreendente, tornando-se um dos grandes referentes turísticos de Salamanca. Ao longo de mais de duas décadas, os espaços visitáveis têm sido ampliados e os conteúdos expositivos têm sido constantemente renovados.
O acesso a Ieronimus é feito pela porta aberta na fachada meridional da Torre Mocha, situada na Praça Juan XXIII. Após cruzar a entrada, o percurso adentra-se nas torres, autênticos guardiões da cidade há mais de novecentos anos. Aqui se conservam salas que funcionaram como espaços defensivos, quartos de sineiros e espaços destinados à liturgia.
1.- SALA DA MASMORRA. Até 1614, este aposento funcionou como a masmorra da catedral e só se podia aceder a ela a partir do interior do templo. A porta atual foi aberta nesse mesmo ano, quando o espaço deixou de ser utilizado como prisão e passou a servir de acesso para o pessoal da Catedral, que adaptou alguns espaços das torres como habitações. Chama a atenção a notável espessura do muro, que teve de ser perfurado do exterior para permitir a entrada na antiga cela. O recinto é coberto por uma abóbada gótica de arco ogival.
2.- APOSENTO DO CARCEREIRO. Esta pequena sala possivelmente serviu para custodiar o acesso à masmorra, daí o seu nome. Antes da restauração, aqui se encontrava uma retrete que utilizavam as famílias que habitaram na torre.
3.-SALA DO ALCAIDE E CATEDRAL VELHA. Esta sala situa-se sobre o vestíbulo de entrada à Catedral Velha. De uma janela geminada vê-se toda a nave central do templo velho. Ao fundo distingue-se a capela-mor, presidida por duas obras-primas da arte tardo-medieval: o esplêndido retábulo realizado pelos irmãos Delli e o fresco do Juízo Final, obra de Nicoló Delli (Nicolás Florentino). Uma tela permite-nos apreciar em detalhe as diferentes tábuas do retábulo e outros elementos difíceis de observar do chão.
O espaço é dedicado à história musical da catedral. Salamanca chegou a ter a primeira cátedra de música da Europa, e a estreita relação entre a Universidade e o cabido catedralício favoreceu a chegada de destacados músicos à cidade. Reproduções de partituras, antigos instrumentos de sopro e outros elementos ajudam a compreender a relevância da música no âmbito catedralício.
A Catedral de Salamanca conserva um conjunto excecional de instrumentos renascentistas e barrocos, alguns dos quais são exibidos aqui, como orlos, charamelas, um baixo e um oboé. A peça mais singular da coleção é uma trompa marinha, da qual só se conhecem dois exemplares em Espanha: o conservado no Museu da Música de Barcelona e o que se mostra nesta sala.
4.- SALA DA TORRE MOCHA.
O chão desta sala corresponde ao nível da torre de defesa de época medieval. As reformas levadas a cabo no século XVIII, quando a torre perdeu o seu valor defensivo, elevaram a sua altura em um piso. A escada em caracol é posterior à construção da torre medieval e foi executada perfurando o muro de cima a baixo. Antes da sua restauração, o aposento abrigou uma habitação e estava dividido com tabiques.
Hojete espaço convida a descobrir a importância do arquivo catedralício, autêntico guardião da história da Catedral e da cidade. Aqui é valorizado o trabalho dos arquivistas, que durante séculos preservaram documentos e tesouros únicos. Nas vitrinas podem ser contempladas peças históricas e objetos singulares, entre os quais se destaca o célebre Cristo peitoral do Cid, um requintado crucifixo românico de cobre dourado e esmaltado, característico da Escola de Limoges.
No centro da sala foi instalada a escultura Lumen Spiralis, da artista Esther Pizarro. Trata-se de uma grade em forma de espiral com mais de 12 metros de comprimento. Se desdobrarmos a espiral, vemos o perfil da cidade, com a Torre dos Sinos como o ponto mais alto. Com ela, presta-se homenagem ao arquivo catedralício e aos seus arquivistas. É formada por lombadas de livros empilhados e, ao mesmo tempo, estes são compostos por letras do alfabeto latino e grego. Só há uma frase legível no alto: o início do Evangelho de São João “Ἐν ἀρχῇ ἦν ὁ λόγος" (No princípio era o Verbo).
5.- SALA ALTA É um espaço de transição, um distribuidor a partir do qual se acede à esplanada da Torre Mocha, à Sala da Abóbada e à passarela que conduz à Torre do Galo e à Catedral Nova.
Com a declaração da Catedral como Monumento Histórico Artístico Nacional em 1887, darão início as modernas campanhas de restauração sobre o monumento, iniciadas pelo arquiteto Repullés y Vargas. Uma linha do tempo informa-nos sobre as sucessivas restaurações realizadas desde então.
6.- PLATAFORMA DA TORRE DO GALO E PÁTIO CHICO Antes de adentrar-se na Catedral Nova, uma passarela conduz até a altura da Torre do Galo, de onde é possível contemplar de perto todos os seus detalhes. Deste ponto, uma varanda oferece ainda uma magnífica vista do Pátio Chico.
7.- BALAUSTRADA DA CATEDRAL NOVA Ao avançar, o visitante acede à balaustrada que rodeia a Catedral Nova à altura do arranque das abóbadas. Este corredor elevado, inspirado nos antigos trifórios medievais, permite apreciar de perto a complexa arquitetura tardo-gótica do templo. Daqui contempla-se em toda a sua magnitude a grandiosidade do edifício: as suas três naves com capelas laterais e as magníficas abóbadas estreladas desenhadas por Rodrigo Gil de Hontañón. Ao longo do percurso, os grandes janelões renascentistas inundam o espaço com a luz coada pelos vitrais, onde se representam cenas bíblicas e figuras de patriarcas, profetas e apóstolos.
Do centro da balaustrada desfruta-se de uma vista privilegiada do majestoso coro dos Churriguera, com a sua sillería de nogueira finamente entalhada, ladeada por dois órgãos —um renascentista e outro barroco—. A Capela-Mor é presidida pela imagem da Virgem da Assunção, acompanhada por imponentes esculturas que representam os Padres da Igreja Oriental e Ocidental. Sobre o altar, duas grandes urnas de prata custodiam as relíquias de São João de Sahagún, padroeiro de Salamanca, e de Santo Tomás de Villanueva.
9.- ESCADA EM CARACOL DE MAIORCA O percurso continua por uma escada em caracol de Maiorca que parte da Capela de São Clemente e sobe até à esplanada da Catedral Nova. Obra de Juan Gil de Hontañón, esta escada do século XVI é uma obra-prima da engenharia renascentista: carece de eixo central e eleva-se em forma helicoidal, apoiando-se unicamente no muro. O corrimão, esculpido diretamente na pedra, acompanha a subida. Subi-la é uma experiência quase escultórica: a luz entra por pequenas aberturas, a pedra curva-se suavemente e o visitante sente como a arquitetura se converte em movimento.
10.- TERRAÇO DE ANAYA Deste terraço desdobra-se a panorâmica mais completa e impactante de Salamanca. Para oeste distingue-se o monte de São Vicente, origem histórica da cidade. Sob os nossos pés destaca-se o edifício histórico da Universidade, coroado pela sineira da sua capela, e ao fundo da panorâmica o Colégio Maior do Arcebispo Fonseca, um dos quatro Colégios Maiores que teve Salamanca. Em seguida, observa-se a imponente silhueta da igreja da Clerecía e da Universidade Pontifícia, que ocupam o que foi o antigo Colégio da Companhia de Jesus. Em direção norte vemos a Rua Maior, eixo principal da cidade histórica, que conduz até à Igreja de São Martinho. Atrás vemos a sineira da Câmara Municipal que nos indica onde se encontra a Praça Maior. Aos pés do visitante estende-se a Praça de Anaya, traçada em 1811 durante a ocupação francesa da cidade, onde se encontram a Igreja de São Sebastião e o antigo Colégio Maior de São Bartolomeu ou de Anaya. Para leste destacam-se o Convento das Dueñas e do Convento de São Estêvão, dois marcos essenciais do património salmantino. Por último, à nossa frente ergue-se a majestosa estrutura da Catedral Nova. As suas três naves escalonadas, sustentadas por contrafortes, arcobotantes e pináculos, oferecem uma autêntica lição de arquitetura tardo-gótica, visível aqui em toda a sua magnitude.
11.- SOTOTELHADO CATEDRAL NOVA Espaço compreendido entre as abóbadas da nave central da Catedral Nova e a cobertura do edifício. Uma passarela permite percorrer o trecho que se estende entre os pés do templo e o zimbório. Abaixo de nós encontra-se o extradorso das abóbadas, sobre o qual é projetado um audiovisual que convida a “voar” sobre o templo e descobrir a estrutura interna da catedral, assim como detalhes impossíveis de apreciar do chão.
Continua-se o percurso em direção à Torre dos Sinos. A sua ascensão é realizada por uma escada em caracol, controlada por um semáforo.
12.- SALA DO RELÓGIO A Sala do Relógio corresponde ao último nível da torre medieval, situada entre a Sala da Abóbada e a Sala dos Sinos. Nela apreciam-se as marcas dos danos sofridos pela torre ao longo do tempo: o incêndio de 1705, a restauração barroca realizada por Pantaleón Pontón Setién —cujo acréscimo provocou sérios problemas na estrutura— e os efeitos do Terramoto de Lisboa. As reparações incluíram a colocação de cintas de ferro no exterior, tirantes de madeira no interior e o revestimento com um “forro” de alvenaria do fuste românico. Também foi desmontada a abóbada estrelada do século XVI que cobria este espaço e foi instalada uma laje de madeira com um vão central para iluminar o interior. Atualmente, a sala alberga a antiga maquinaria do relógio da catedral e um vídeo sobre a passagem do tempo. Este relógio marcou durante séculos a vida quotidiana da cidade e chegou a gerar uma curiosa situação: após a adoção do meridiano de Greenwich, coexistiram dois horários, o do relógio catedralício para a vida diária e o oficial que marcava o relógio da Câmara Municipal.
13.- CORPO DOS SINOS Este aposento pertence ao corpo superior da torre, acrescentado no século XVIII. O campanário atual alberga catorze sinos. Sobre eles, na cúpula da torre, encontra-se o maior de Salamanca, o sino maior ou grande sino das horas, conhecido como «Maria da O». Mais acima, no interior da lanterna, o pequeno sino dos quartos. As paredes da sala conservam numerosas inscrições com invocações religiosas, mantidas como testemunho e homenagem a quem, em tempos passados, deixou nestes muros a marca da sua presença. Deste ponto, o mais elevado da cidade, obtém-se uma vista panorâmica completa para os quatro pontos cardeais.
Descendo, à altura da Sala Alta, encontram-se os seguintes aposentos:
14.- SALA DA ABÓBADA Construída no século XIII, a sala é coberta por uma abóbada de berço ogival. Tanto os muros quanto a abóbada foram construídos com alvenaria de pedra arenito de Villamayor, na qual ainda se podem apreciar vestígios de lavra e marcas de canteiro. Ao longo do século XVIII, diversas intervenções e várias catástrofes naturais danificaram gravemente sua estrutura, o que obrigou a reforçá-la e escorá-la. O primeiro desses desastres ocorreu em 1705, quando um raio provocou um incêndio que derreteu os sinos e converteu o aposento em um autêntico forno, arrebentando os muros e afetando o corpo superior da torre. O mestre Pantaleón Pontón Setién encarregou-se de sua reparação e adicionou o remate barroco que coroa a torre. No entanto, o peso dessa nova estrutura prejudicou o fuste medieval, um dano que se agravou após o terramoto de Lisboa de 1 de novembro de 1755. As consequências de tudo isso continuam visíveis no interior: muros fraturados, fissuras e janelas abocinadas que foram maciçadas. Dois grandes troncos de madeira escoram hoje a sala, enquanto no exterior várias cintas metálicas reforçam tanto este aposento quanto o resto da Torre dos Sinos. Além disso, um muro adicionado como forro de pedra revestiu o fuste original desde o nível dos sinos até o chão, ocultando para sempre a estrutura primitiva em três dos seus lados. Nas vitrines expostas na sala exibem-se os desenhos dos distintos projetos apresentados para a sua restauração, juntamente com objetos que evocam os ofícios cujo trabalho anónimo, ao longo dos séculos, deu forma a este excepcional conjunto catedralício. Este espaço lembra também que aqui viveram durante gerações os sineiros e outros trabalhadores da Catedral, que, junto às suas famílias, fizeram desta sala o seu lar até bem entrada a segunda metade do século XX.
15.- TERRAÇO DA TORRE MOCHA Apesar do seu nome, esta torre nunca foi desmochada; de facto, nas suas origens era mais baixa, já que no século XVIII foi acrescida de um corpo.
A saída para o Terraço da Torre Mocha, situada aos pés da Torre do Campanário, oferece uma das vistas mais completas e belas do Conjunto Catedralício. Destaca-se especialmente a singular silhueta da Torre do Galo, o zimbório de inspiração bizantina da Catedral Velha, cuja originalidade contrasta com a imponente cúpula neoclássica da Catedral Nova. As ameias que coroam a nave central da Catedral Velha evocam o seu antigo carácter defensivo, recordando-nos que este templo foi também fortaleza.
Deste ponto privilegiado, o olhar abre-se para a várzea do rio Tormes, onde se sucedem, de leste a oeste, alguns dos marcos mais significativos da paisagem salmantina: o Mosteiro de La Vega, de onde procede a imagem da padroeira de Salamanca que hoje preside o retábulo da Catedral Velha; o próprio rio Tormes; a Ponte Romana, que conduz ao histórico Arrabal del Puente; e, sobre ele, a silhueta contemporânea do Parador de Turismo.
Aos nossos pés vemos o claustro catedralício, em cujo lado oriental sobressai a janela gótica da Capela de Santa Bárbara, na qual se realizavam os exames que outorgavam o título de Doutor pela Universidade de Salamanca até meados do século XIX.