ESCOLAS MAIORES
1 horaA Universidade de Salamanca conserva um valioso património histórico composto por edifícios e espaços emblemáticos que continuam em uso e que todos os dias recebem centenas de visitantes, seja pelo seu interesse artístico e histórico ou pelas suas atividades académicas. Entre eles destaca-se especialmente o edifício das Escuelas Mayores, com a sua célebre fachada plateresca. No seu interior conservam-se as antigas salas de aula dedicadas a figuras relevantes da instituição —como Unamuno, Fray Luis de León ou Francisco de Vitoria—, a Biblioteca Geral Histórica, o Paraninfo, a Capela de São Jerónimo e a escadaria com os seus enigmáticos relevos.
As origens da Universidade de Salamanca remontam a 1218, quando o rei Afonso IX de Leão fundou o Estudio General del Reino de León em Salamanca, o gérmen daquela que hoje é a universidade mais antiga de Espanha. Em meados do século XIII, o papa Alexandre IV reconheceu a validade universal dos graus outorgados pela instituição e concedeu-lhe o privilégio de utilizar os símbolos pontifícios como selo próprio.
Durante os seus dois primeiros séculos, a Universidade ministrou aulas no claustro da Catedral Velha e em diversos edifícios alugados nas suas imediações. Não foi senão no século XV que começou a dispor de instalações próprias, entre elas as Escuelas Mayores, o Hospital do Estudo —atual Reitoria— e as Escuelas Menores. A abertura do Patio de Escuelas no século XVII terminou de configurar um dos espaços mais emblemáticos de Salamanca, conhecido como a Cidade do Saber.
Preço visita livre
- Individual - 10.00 €
- Jubilados - 5.00 €
- Familia numerosa - 5.00 €
- Estudiantes - 5.00 €
- Grupos - 5.00 €
- Niños (Edad máxima: 11) - 0.00 €
- Estudiantes universidad salamanca - 0.00 €
- Entrada gratuita lunes - 0.00 €
As Escolas Maiores constituem um espaço onde convivem história, arte e vida institucional. Embora já não se ministrem aulas nas suas salas, o edifício continua plenamente ativo como sede de atos académicos, cerimónias, cursos, seminários e conferências, mantendo viva a sua função universitária num ambiente de extraordinário valor patrimonial.
A Universidade de Salamanca é a instituição universitária mais antiga do âmbito hispânico em funcionamento ininterrupto. Foi fundada em 1218 como Estudo Geral do Reino de Leão pelo rei Afonso IX. O seu filho, Fernando III, o Santo, confirmou esta decisão em 1243, e nas décadas seguintes a instituição foi consolidando o seu prestígio graças ao apoio de distintos reis e papas. Destacam-se especialmente o privilégio outorgado por Afonso X em 1254, que regulou a sua organização e financiamento, e as bulas do papa Alexandre IV em 1255, que outorgaram validade universal aos seus títulos.
Durante quase dois séculos, a atividade docente desenvolveu-se em espaços provisórios, como o claustro da Catedral Velha, igrejas próximas e diversas casas do ambiente urbano. Só no início do século XV a Universidade impulsionou a construção dos seus próprios edifícios. O ponto de partida chegou em 1411, quando o papa Bento XIII ordenou levantar instalações adequadas para as distintas disciplinas. Deste impulso nasceram os principais edifícios históricos do conjunto: as Escolas Maiores, as Escolas Menores e o Hospital para estudantes pobres.
O edifício das Escolas Maiores foi erguido junto à Catedral e adotou desde o início uma planta quadrangular organizada em torno de um pátio central. Nele se distribuíram as salas de aula e a capela. Originalmente contava com um único piso e dois acessos principais: a Fachada das Cadeias, a leste, e a hoje célebre fachada plateresca ou Fachada Rica, a oeste, convertida num dos grandes símbolos do Renascimento espanhol.
As primeiras fases construtivas desenvolveram-se entre 1415 e 1452, consolidando a estrutura do edifício e delimitando inclusive o seu espaço mediante um muro ameado. A partir de então sucederam-se intervenções chave que configuraram o seu aspeto atual. Entre elas destacam-se a criação da primeira grande biblioteca (1474–1479), obra dos mestres Yuça e Abrayme, decorada com o célebre Céu de Salamanca de Fernando Gallego; a renovação da Capela de São Jerónimo (1503–1510), com esculturas de Felipe Bigarny e Gil de Ronza e pinturas de Juan de Flandes; a construção da monumental escadaria com os seus enigmáticos relevos; e, sobretudo, a realização da Fachada Rica (1519–1528), autêntico emblema da Universidade.
No século XVIII empreenderam-se novas reformas de grande alcance. Andrés García de Quiñones reconstruiu a biblioteca após a sua destruição em 1664 e adicionou uma nova abóbada, enquanto Simón Gavilán Tomé reformou a Capela de São Jerónimo, incorporando um grande retábulo de mármores e jaspes e ocultando o antigo Céu de Salamanca. Em 1791 interveio-se também no Salão dos Claustros, espaço essencial da vida académica, seguindo o projeto de Lesmes Gabilán Sierra.
A última grande transformação teve lugar entre 1875 e 1879, durante o reitorado de Mamés Esperabé Lozano. O arquiteto José Secall realizou uma ampliação decisiva: construiu-se a fachada oriental de estilo eclético-classicista e completaram-se as galerias do claustro alto com arcos mistilíneos, configurando o aspeto atual do conjunto.
O Pátio das Escolas foi criado no século XVII dentro de um projeto impulsionado por Filipe III para abrir uma grande praça que desse visibilidade e unidade aos edifícios universitários. Traçado por Pedro Gutiérrez em 1609 e finalizado em 1622, o plano incluía onze casas de três andares —embora nem todas tenham sido construídas como previsto— e converteu este espaço no coração da chamada Cidade do Saber.
Para o pátio se voltam os principais edifícios históricos da Universidade de Salamanca: a leste, as Escuelas Mayores com sua célebre fachada plateresca; ao sul, o Hospital do Estudo, hoje Reitoria; e no ângulo sudoeste, a porta que conduz ao Pátio das Escuelas Menores, onde se conserva o famoso Céu de Salamanca, uma pintura mural do século XV que representa o firmamento de forma mitológica.
No centro do pátio ergue-se desde 1869 a estátua de Frei Luís de Leão, obra de Nicasio Sevilla, situada sobre um pedestal decorado com alegorias da poesia.
Antes de entrar nas Escuelas Mayores, destaca-se a magnífica fachada plateresca, uma autêntica filigrana esculpida em pedra de Villamayor. Sua iconografia combina símbolos dos Reis Católicos, do imperador Carlos V e do papado, refletindo o apoio que estas instituições deram ao Estudo salmantino. Organizada como um grande retábulo em três corpos, mostra no inferior os Reis Católicos unidos por um cetro; no central, o escudo imperial de Carlos V; e no superior, a figura do Papa sob os símbolos pontifícios. Numa de suas pilastras aparece a célebre rã, convertida com o tempo em um amuleto de boa sorte para os estudantes.
O INTERIOR DO EDIFÍCIO A musealização do interior do edifício busca mostrar ao visitante a relevância histórica da Universidade de Salamanca através do simbolismo de suas salas de aula e das vivências dos professores e estudantes que as ocuparam ao longo dos séculos. Durante o percurso, diversos pontos informativos e recursos audiovisuais oferecem contexto e explicações sobre cada um dos espaços. No hall de entrada destacam-se duas abóbadas góticas nervuradas, cujas chaves centrais exibem, respectivamente, o escudo dos Reis Católicos e o selo da Universidade.
O claustro é de planta quadrangular, com 22 arcos em cada um de seus andares. Arcos de meio ponto nas galerias baixas e de contracurvas ou mistilíneos nas altas. As quatro galerias do claustro inferior estão cobertas por belos telhados de inspiração mudéjar. A estas galerias abrem-se os antigos “generais” ou salas de aula, cujas portas ainda conservam as lápides de ardósia que, mediante cores e inscrições, indicam a matéria que era ministrada em cada uma. Junto a cada porta, um letreiro em letras vermelhas recorda alguns dos catedráticos que ensinaram nesses espaços. No centro do pátio ergue-se a centenária sequoia californiana, plantada no século XIX.
O percurso começa no geral da Eloquência, dedicada a Dorado Montero. Em seu interior, uma placa de bronze, cinzelada por Benlliure, recorda o prestigioso catedrático de Direito Penal da Universidade de Salamanca nos anos 1892-1919. Nos armários encontram-se os trajes que a universidade empresta a seus doutores nos atos cerimoniais.
A Sala Miguel de Unamuno foi uma das salas de aula onde se ministravam os ensinamentos de Direito Canônico, uma das quatro «Faculdades Maiores» da Universidade, junto com as de Direito Civil, Teologia e Medicina. A sala é dedicada a uma das figuras universais da Universidade de Salamanca, Miguel de Unamuno, catedrático de grego desde 1891 e várias vezes reitor desta Universidade.
A inscrição situada sobre a primeira porta da ala norte informa que acessamos o geral de Teologia, dedicado a Frei Luís de Leão. Apesar de sua arquitetura simples, é a sala de aula mais emblemática da Universidade; seu ambiente nos transporta ao século XVI, com seus bancos de madeira rudes cobertos de gravuras realizadas pelos alunos que em outros tempos frequentaram as aulas de teologia. Preside-a a cátedra com o tornavoz de onde Frei Luís pronunciou seu famoso «dizíamos ontem» ao incorporar-se novamente a sua labor docente após passar anos na prisão inquisitorial.
O Paraninfo foi em sua origem a cátedra geral de Direito Canônico, como indica a inscrição conservada sobre a porta, situada sob o escudo papal com a tiara, as chaves pontifícias e a meia-lua de Pedro de Luna (Bento XIII). A sala é presidida por um grande dossel que abriga um estandarte púrpura de notável valor artístico e histórico, doado pelo príncipe João —filho dos Reis Católicos— aos estudantes de Salamanca durante o período em que foi aluno e Senhor da cidade. Em suas paredes distribuem-se várias tapeçarias de Bruxelas do século XVII com cenas mitológicas. Na parede norte destacam-se um retrato do rei Carlos IV, procedente do ateliê de Goya e reproduzido a partir do original conservado no Museu do Prado, assim como uma grisalha que representa os Reis Católicos. Em 12 de outubro de 1936, esta sala foi palco do célebre enfrentamento entre Miguel de Unamuno e o general Millán Astray, episódio que deixou para a história a famosa frase do reitor: «Vencereis, mas não convencereis». Atualmente, o Paraninfo acolhe os atos acadêmicos mais solenes da Universidade.
O Geral de Medicina, com complementos de astronomia e filosofia, é dedicado ao dominicano Francisco de Vitória, catedrático de teologia da Universidade de Salamanca de 1526 até sua morte em 1546. A parede norte é ocupada por uma grande projeção da Sala Francisco de Vitória da sede das Nações Unidas em Genebra, que homenageia a Primeira Escola de Salamanca e a defesa que os professores dessa escola fizeram dos direitos dos indígenas americanos, germe dos Direitos Humanos.
No centro da galeria oriental encontra-se o hall de entrada que comunica o claustro com a Praça de Anaya, coberto com uma soberba armadura mudéjar policromada.
A sala de aula de Direito Civil, como alude a placa situada sobre o dintel da porta, hoje é conhecida como a «Sala da Coluna» pela coluna situada no centro do aposento. Depois de ter sido utilizada como museu de arte sacra, hoje acolhe exposições temporárias que, com distintas temáticas, mostram os fundos bibliográficos da Biblioteca Histórica.
Passada a porta envidraçada pela qual se sai do edifício, a placa situada sobre a porta seguinte nos recorda que nela se ensinavam línguas antigas: grego, hebraico, caldeu ou árabe. Hoje dá acesso ao elevador e aos sanitários.
Capela Real de São Jerônimo A historiografia clássica aponta a existência de duas capelas anteriores à atual. A primeira, construída no início do século XV, situava-se na ala leste, onde hoje se encontra o hall de acesso pela Praça de Anaya.
A segunda capela foi erguida na época dos Reis Católicos no mesmo local da capela atual. Compartilhava espaço com a biblioteca, situada acima dela, para a qual Fernando Gallego pintou o célebre Céu de Salamanca. Em 1506, a biblioteca foi trasladada, a capela foi reformada e um novo retábulo foi instalado, o que implicou desmontar o teto artesonado que a cobria e deixar à vista o Céu de Salamanca, que cobriu a capela até bem entrado o século XVIII. Contava com um valioso retábulo que combinava esculturas de Felipe Bigarny e pinturas de Juan de Flandes, algumas das quais se conservam hoje nas Escuelas Menores, na sala do Céu de Salamanca.
Durante a reforma realizada entre 1761 e 1767, parte da antiga abóbada celeste desabou e decidiu-se construir uma nova em um nível inferior, o que deixou oculto o Céu de Salamanca por séculos. Nessa mesma intervenção, o retábulo de madeira do século XVI foi substituído pelo atual, elaborado com mármores e jaspes. No corpo inferior do retábulo destacam-se três telas do pintor Francisco Cacciániga: no central, o juramento dos professores da Universidade de defender o Mistério da Imaculada Conceição; à esquerda, São João de Sahagún no Milagre do Poço Amarelo; e à direita, Santo Tomás de Villanueva socorrendo os pobres. O corpo superior apresenta um relevo de bronze dourado com a figura de São Jerônimo, flanqueado por duas telas que representam Santo Agostinho e Santo Tomás de Aquino. Finaliza o conjunto um calvário realizado por Antonio González Ruiz.
Na hornacina da parede direita encontra-se uma urna de mármore branco e preto que guarda os restos de Frei Luís de Leão. Foi realizada no final do século XIX pelo escultor Nicasio Sevilla, autor também do monumento dedicado ao poeta no Pátio das Escolas.
Antes de abandonar a capela, pode-se contemplar na parede leste o Diploma de Doutora Honoris Causa concedido a Santa Teresa em 1922.
Neste espaço celebram-se cerimônias religiosas durante a Semana Santa nas quais a música adquire um papel destacado. Os universitários, professores e membros do pessoal da instituição têm, além disso, o privilégio de poder contrair matrimônio nesta capela.
Passada a escada encontra-se a sala de aula de Direito Civil. Hoje se dedica ao célebre músico Francisco de Salinas, catedrático de música na Universidade de Salamanca entre 1567 e 1590, considerado um dos principais teóricos da música renascentista espanhola. É utilizada para ensinamentos de música, concertos e ciclos de conferências. Três retratos de Rainhas -Ana da Áustria, esposa de Filipe II, Margarida da Áustria, esposa de Filipe III, e Isabel de Bourbon, esposa do rei Filipe IV- e duas tapeçarias com cenas da história de Eneias decoram a sala.
Escadaria
A escadaria que conduz ao andar superior é uma peça singular dentro da arte espanhola e encerra uma profunda simbologia. Seus três lances representam as distintas etapas da vida humana e o ascenso rumo à perfeição moral e espiritual, superando os perigos próprios de cada fase. Os dois primeiros lances inspiram-se em gravuras do final do século XV realizadas pelo artista Van Meckenem.
O primeiro lance alude à juventude, caracterizada pela vida jocosa e lasciva. Em torno de uma dama de vida livre, um bobo e um músico com gaita de fole, vários jograis dançam com fitas e guizos nos pés e mãos. Trata-se da Dança mourisca, um tema muito difundido e representado em numerosas gravuras da época.
O segundo lance nos introduz na maturidade, a etapa da escolha e do compromisso. A cena divide-se claramente em duas: o bem, simbolizado pela abelha, e o mal, representado pela aranha.
A última cena mostra uma cavalgada em que quatro cavaleiros ascendem em direção à figura situada na quarta pilastra: um jovem que oferece seu coração. Esta imagem simboliza o triunfo do homem que soube dominar suas paixões para alcançar o Bem supremo. Naquele tempo, a cavalaria e seu espírito constituíam o ideal moral mais elevado. A meta dos cavaleiros é Amicitia, o Bem supremo, o Amor puro, Deus, encarnado na figura da quarta pilastra.
O CLAUSTRO ALTO No claustro alto encontra-se, em primeiro lugar, a galeria ocidental, onde se localiza a Biblioteca Histórica. Este espaço foi construído no início do século XVI para abrigar a segunda biblioteca universitária, enquanto as outras três galerias superiores foram adicionadas no século XIX.
A galeria apresenta uma interessante combinação de estilos: está coberta por um magnífico teto de madeira de castanho que funde elementos da tradição mudéjar e influências italianas, e seus janelões mostram os característicos arcos mistilíneos próprios da arquitetura salmantina. Na parede do fundo podem ser vistas as representações pictóricas de dois santos, acompanhadas de inscrições alusivas a doenças venéreas que advertiam os estudantes sobre os riscos de levar uma vida desordenada.
A Biblioteca A Biblioteca Histórica da Universidade de Salamanca tem suas raízes no século XIII, coincidindo com a fundação do Estudo salmantino. Afonso X incluiu em sua Carta Magna a figura do Estacionário, responsável por custodiar e facilitar livros para consulta. No entanto, a primeira livraria documentada data do século XV; estava situada sobre a capela e era coberta com as pinturas astrológicas que hoje conhecemos como o Céu de Salamanca.
A segunda biblioteca foi construída no início do século XVI na galeria ocidental do claustro alto. Dela se conservam a porta de estilo gótico tardio, finamente talhada, e uma magnífica grade com decoração plateresca.
Em 1664, o desabamento da abóbada deixou a Universidade quase um século sem um espaço estável para sua biblioteca. Só em 1749 a sala atual foi reconstruída, com sua característica abóbada e as estantes de pinho desenhadas por Manuel de Larra Churriguera. Os fundos são organizados em estantes de duplo andar, rematadas por grandes medalhões com inscrições que indicam o conteúdo de cada seção. No interior encontra-se a câmara de manuscritos e incunábulos, que conserva hoje 2.805 manuscritos —os mais antigos do século XI— e 485 incunábulos. Na sala geral são custodiadas mais de 60.000 obras impressas entre o século XVI e 1830, provenientes em sua maioria do Colégio da Companhia de Jesus em Salamanca, de antigos colégios e conventos, assim como de legados e aquisições realizadas pela Universidade ao longo de seus oitocentos anos de história.
Ampliação do claustro alto As restantes três galerias do claustro alto foram construídas no século XIX junto ao Salão dos Claustros. Nelas se expõem fac-símiles, reproduções de mapas antigos e objetos utilizados nas práticas de botânica e biologia. Entre os objetos mais curiosos destaca-se um manequim de madeira que foi utilizado para as práticas de enfaixamento desde o século XVI até princípios do século XX.