PARQUE ARQUEOLÓGICO DO CERRO DE SÃO VICENTE
1 hora 30 minutosO Parque Arqueológico do Cerro de San Vicente é um importante sítio arqueológico situado na cidade de Salamanca. Localiza-se no topo do Cerro de San Vicente, o mais ocidental dos três cerros sobre os quais a cidade se assenta. Neste espaço, conservam-se vestígios de um povoado da Primeira Idade do Ferro, ligado à cultura do Soto de Medinilla, assim como vestígios do posterior convento beneditino de San Vicente e das baterias napoleónicas construídas pelas tropas francesas durante a Guerra da Independência, conflito que provocou a destruição do convento.
Hoje, todos estes vestígios foram estudados e musealizados, o que permite estruturar a visita ao cerro em três grandes áreas:
- Os vestígios do povoado proto-histórico.
- O museu dedicado à Salamanca desaparecida do século XIX, instalado no que foi o claustro do Mosteiro beneditino de San Vicente.
- O parque botânico instalado nas encostas do cerro.
Preço visita livre
- Individual - 0.00 €
O Cerro de San Vicente é um enclave excepcional para compreender as origens de Salamanca e a evolução histórica do território. Sua descoberta em 1949, durante as obras de construção do Colégio Universitário Nossa Senhora de Guadalupe, marcou o início de uma longa trajetória de investigações arqueológicas que continua na atualidade. As escavações sistemáticas empreendidas em 1990 confirmaram a existência de um povoado da Primeira Idade do Ferro associado à cultura do Soto de Medinilla, o que situou o cerro no mapa dos sítios chave do vale médio do Douro. A aprovação do Plano Especial do Cerro de San Vicente em 1997 representou um marco decisivo: permitiu proteger o sítio, adquirir os terrenos onde o sítio se localiza, demolir o antigo colégio que ocupava o topo do cerro e continuar as campanhas arqueológicas. A isso somou-se a execução do Projeto das Obras de Proteção dos Restos da Planta do Antigo Convento de San Vicente, o que implicou a construção de um espaço museográfico sobre os restos do convento beneditino, reforçando a vocação divulgativa do projeto, que hoje inclui visitas guiadas e um renovado centro de interpretação.
O assentamento proto-histórico, ocupado entre os séculos VIII e IV a.C., localizava-se num ponto estratégico sobre o Tormes, dominando um vau do rio e controlando um amplo território. Sua posição no corredor natural que comunica o sul peninsular com a Meseta Norte —a futura Via da Prata— favoreceu os intercâmbios económicos e culturais desde épocas muito precoces. O povoado, de cerca de dois hectares e aproximadamente 250 habitantes no seu momento de maior desenvolvimento, estava protegido por um escarpa natural e por um muro defensivo no seu setor mais vulnerável. As escavações revelaram moradias circulares construídas com adobe e organizadas em torno de uma rua, juntamente com estruturas auxiliares destinadas ao armazenamento de alimentos e ferramentas. A sobreposição de construções e a espessura dos estratos arqueológicos refletem uma ocupação estável e prolongada ao longo dos aproximadamente quatrocentos anos de vida do povoado.
A economia das gentes do Soto combinava agricultura, pecuária e recolha, complementadas com a caça. A presença de moinhos de mão, celeiros e restos de fauna evidencia uma intensa atividade produtiva. A cultura material mostra um notável desenvolvimento artesanal, especialmente na olaria e na metalurgia do bronze, juntamente com trabalhos têxteis e a elaboração de utensílios de osso e pedra.
Nos últimos anos, as escavações revelaram achados excepcionais que demonstram contactos com o Mediterrâneo oriental, como cerâmicas fenícias e egípcias, entre as quais se encontram objetos cultuais fabricados em faiança, como um pequeno ídolo que seguramente representa uma deusa. Estes materiais, juntamente com a presença de uma grande estrutura retangular interpretada como um possível espaço ritual, sugerem que as relações com povos orientais foram mais profundas do que um simples intercâmbio comercial. É possível que algumas pessoas —talvez mulheres— se tenham estabelecido no povoado e transmitido elementos culturais e religiosos à comunidade local. Por volta do século IV a.C., o crescimento demográfico levou à mudança da população para o vizinho Teso de las Catedrales, onde surgiu o castro de Salmantica, origem da cidade histórica.
Após um longo período de abandono, o cerro voltou a ser ocupado na Idade Média. Embora as origens do mosteiro de San Vicente não estejam totalmente claras, sabe-se que existia antes de 1143, data em que Afonso VII o doou à ordem de Cluny. No século XVI, sob os Reis Católicos, o convento foi incorporado à Ordem Beneditina Reformada e transformado em colégio universitário, o que motivou uma profunda reconstrução que deu origem a um conjunto monumental de grande valor arquitetónico. No entanto, a Guerra da Independência significou a sua ruína: os franceses fortificaram-no e, durante o Cerco de Salamanca de 1812, ficou praticamente destruído. Após a desamortização de 1835, o cerro tornou-se um bairro humilde cujos habitantes reutilizaram os restos do convento.
A redescoberta do povoado pré-histórico em 1949 e o projeto de recuperação iniciado nos anos noventa permitiram transformar o cerro num parque arqueológico e num espaço chave para a interpretação histórica de Salamanca. Em 2025, foi inaugurado o renovado Centro de Interpretação e começaram os trabalhos de musealização dos restos proto-históricos e das defesas napoleónicas, consolidando o cerro como um lugar onde confluem investigações histórico-arqueológicas e divulgação cultural.
O percurso pelo Parque Arqueológico do Cerro de San Vicente divide-se em três grandes espaços:
-
Os restos do povoado pré-histórico, situados no topo do cerro.
-
A vista para o Centro de Interpretação da Salamanca desaparecida, que ocupa o moderno edifício construído em 2001 sobre o que foi o claustro do Convento de San Vicente.
-
As encostas do cerro, convertidas hoje num parque arqueobotânico.
PERCURSO O percurso pelo Parque Arqueológico do Cerro de San Vicente divide-se em três grandes espaços: os restos do povoado pré-histórico, situados no topo do cerro, a visita ao Centro de Interpretação da Salamanca desaparecida, que ocupa o moderno edifício construído em 2001 sobre o que foi o claustro do Convento de San Vicente, e as encostas do cerro, hoje transformadas num parque arqueo-botânico. RESTOS DO POVOADO PRÉ-HISTÓRICO Até o momento, os restos do povoado da Primeira Idade do Ferro foram dados a conhecer através de visitas guiadas. Estas visitas oferecem ao público uma visão detalhada do modo de vida das comunidades que habitaram o cerro entre os séculos VIII e IV a.C. Durante o percurso, são explicadas as técnicas e materiais empregados na construção das habitações e estruturas anexas. Da mesma forma, é mostrado como, através dos materiais recuperados nas escavações, a arqueologia, auxiliada por outras ciências auxiliares, permite reconstruir aspetos fundamentais daquela sociedade: sua economia, tecnologia, relações comerciais e até mesmo suas crenças. Tudo isso nos ajuda a compreender melhor a vida daqueles que ocuparam o Cerro de San Vicente durante aproximadamente quatro séculos. Dentro do edifício que protege os restos arqueológicos, uma passarela situada sobre uma zona de trânsito do povoado permite visualizar o espaço escavado para a exposição pública dos restos: A escavação em área realizada no ano de 2005 deixou à vista três habitações principais, uma grande estrutura retangular e uma dezena de estruturas anexas, organizadas em torno de uma rua. As casas têm planta circular, construídas com adobes, com diâmetros entre 4 e 7 metros. No seu interior, todas partilhavam elementos comuns: um poste central que sustentava o teto, uma lareira para cozinhar e aquecer-se, e um banco corrido de adobe encostado à parede interior que servia como base, assento e cama. A estrutura retangular foi recentemente interpretada como um possível santuário e o espaço circundante como uma área ritual. Estas habitações eram habitadas por unidades familiares, e à sua volta dispunham-se outras dependências interpretadas como armazéns ou espaços de trabalho. A sobreposição de construções de adobe detetada nas escavações indica que se tratava de um povoado estável ocupado durante vários séculos, o que se explica pela bem-sucedida exploração agrícola e pecuária dos espaços circundantes. Através da cultura material, reflete-se sobre a economia, o modo de vida, as relações comerciais e as crenças dos habitantes do cerro durante a Primeira Idade do Ferro. OS MIRADOUROS Nos bordos da plataforma superior do cerro, foram adaptados três espaços como miradouros, de onde se obtêm vistas panorâmicas excecionais do Teso das Catedrais, da várzea do rio Tormes e dos extensos territórios que se estendem a sul e a oeste da cidade. Cada um destes miradouros possui um painel com a sua correspondente legenda que ajuda a identificar os marcos arquitetónicos e os espaços naturais que se estendem diante de nós. AS ENCOSTAS DO CERRO DE SAN VICENTE No âmbito do Plano Diretor do Cerro de San Vicente, também foram realizadas escavações e trabalhos de ajardinamento nas encostas do cerro, hoje convertidas num parque municipal com abundante vegetação autóctone. Durante o percurso por este espaço verde, podem ser observados elementos de interesse etnográfico como uma nora, sistemas de rega e esgotos, socalcos e antigos caminhos empedrados, todos eles identificados por meio de painéis com a explicação correspondente. CENTRO DE INTERPRETAÇÃO SOBRE SALAMANCA DESAPARECIDA “Salamanca invisível” O edifício do museu foi construído no ano de 2001 sobre os restos conservados do claustro do Convento de San Vicente. Os trabalhos, realizados pelos arquitetos Juan Vicente, Pablo Núñez e Pablo Redero e promovidos pelo Exmo. Ayuntamiento de Salamanca, foram galardoados com o Prémio Nacional de Restauração e Conservação de Bens Culturais “Cidades Património da Humanidade” 2002. O edifício aproveita os muros conservados do claustro do mosteiro de San Vicente e recria os volumes originais na nova construção. O próprio imóvel torna-se uma parte essencial da exposição: adegas, pisos, muros e outros elementos originais do convento servem de enquadramento para os conteúdos desenvolvidos na exposição. A planta do museu desenvolve-se em forma de “L” em torno do espaço claustral, coincidindo com duas das galerias originais do mosteiro. Uma série de passarelas e plataformas facilitam o percurso pelo seu interior. O percurso pelo interior do museu organiza-se nas seguintes etapas:
- Visualização do audiovisual que explica a importância do Cerro de San Vicente para o conhecimento das origens da cidade.
- Reflexão sobre a “cidade invisível”, a cidade desaparecida mas ainda latente nos vestígios arqueológicos e na memória coletiva.
- No percurso pela galeria oeste poderemos ver: • Uma linha do tempo desde os tempos geológicos até à atualidade. • Exposição de mapas e plantas históricas que mostram as transformações do centro histórico de Salamanca desde o século XVIII até o século XX. • A mítica panorâmica da urbe realizada em 1570 por Antón van den Wyngaerde. • Um ecrã com uma atrativa proposta audiovisual que relata, através de plantas e áudios, a evolução de Salamanca desde as suas origens.
- Na galeria sul, conserva-se in situ o magnífico pavimento da Sala Capitular do convento, elaborado com seixos de quartzito que formam elegantes desenhos geométricos. Neste espaço, explica-se a história do mosteiro beneditino de San Vicente e aprofundam-se os vestígios arqueológicos encontrados no local, sublinhando a importância que os conventos tiveram na vida religiosa e urbana de Salamanca. Também se mostra como, após a destruição do convento durante a Guerra da Independência, as suas ruínas foram reutilizadas pelas famílias que colonizaram o cerro na segunda metade do século XIX, transformando-o num dos bairros mais humildes da cidade, conhecido como o Bairro de San Vicente e os Milagros. 5.- No interior de uma sala, são exibidos uma série de objetos que chamam poderosamente a atenção dos visitantes: a pasta de Wellington e a maquete da Câmara Municipal desenhada por Andrés García de Quiñones no século XVIII. Um diorama com projeções sobre uma maquete relata o desenvolvimento da Batalha dos Arapiles. 6.- As adegas: numa das adegas, é apresentada a pré-história de Salamanca, com ênfase no sítio arqueológico do Soto de Medinilla, localizado no cerro. Um audiovisual projeta desenhos geométricos nas paredes.
- No piso superior, encontramos informação sobre a Batalha dos Arapiles, a Desamortização e o posterior crescimento e desenvolvimento urbanístico de Salamanca durante os séculos XIX e XX.
- Na zona do miradouro, são exibidas vitrines com reproduções de armas utilizadas durante a Guerra da Independência. Conclui-se, observando a partir deste espaço privilegiado, como o bairro de San Vicente se transformou desde o final do século XX.